Hábitos da liderança e os impactos nos resultados da equipe

18/06/2019

O hábito tem o poder de reafirmar ou de transformar realidades. Mesmo quando não alteramos os fatos em si, se olharmos por outras perspectivas, estamos ajustando como as coisas nos afetam. São os hábitos da liderança que moldam as equipes, seja você chefe ou uma liderança informal. Se você é conciliador, inovador, crítico, observador, desenvolvedor, inseguro ou exigente, assim será a sua equipe. Cada um de nós transporta consigo padrões de pensamento, de sentimentos e de ação potencial, que são o resultado de uma aprendizagem contínua.

 

As pessoas, mesmo que intuitivamente, reproduzem as formas de agir de quem está no comando. Buscamos o equilíbrio entre o que é desejado (nossas pulsões e vontades) e o que é desejável (aceitável dentro da cultura e do contexto organizacional). Símbolos, heróis, anti-heróis, rituais e valores das narrativas organizacionais, têm função similar à dos personagens e enredos dos contos de fadas. Eles apresentam os valores do grupo. Delimitam as formas de agir de acordo com a cultura da organização. A cultura, seja organizacional ou coletiva/social, é um elemento adquirido. Não é herdado. Precisa ser aprendido na prática cotidiana.

 

Se quiser uma equipe de alto desempenho, tenha alto desempenho no dia a dia. Se quiser uma equipe inovadora, permita que as pessoas exponham suas ideias e que as pessoas errem sem medo de punições. Algumas empresas dizem ser inovadoras, mas punem severamente os erros ou criam desafios inalcançáveis. Como você age quando sua equipe, com seu incentivo, tenta inovar e falha? Tem o hábito de aprender com o processo e identificar novas formas de inovar ou você procura culpados? Forma recorrente de reagir às situações, os seus hábitos, mostram mais sobre como você pensa do que aquilo que diz.

 

Se quiser ser ouvido por seus liderados, sem o peso do cargo, ouça as pessoas e tente ter empatia. Se quiser respostas sinceras, seja transparente. Contudo, tome o cuidado para não confundir transparência com falta de tato, principalmente se for em um feedback de correção. O feedback precisa ter objetivo claro, linguagem adequada, local apropriado, narrativa pertinente e a frequência específica. A linguagem é tão importante quanto o conteúdo. Ao ser direto, algumas pessoas poderão entender sua fala como agressiva. Outras, quando apresentamos o contexto, se perdem e acham que não estamos sendo objetivos.

 

O feedback, como muitos outros mecanismos de desenvolvimento de equipes de alto desempenho, precisa ser adequado ao estilo de interação do interlocutor. O feedback, seja corretivo, de desenvolvimento ou de valorização (elogio), deve ser pensado de forma a deixar muito claro o tema, o objetivo e o que se deseja que seja feito a partir daquele momento. Avalie que tipo de linguagem será mais adequada. Encontramos, de forma recorrente, 5 estilos narrativos: (a) desafio/superação, (b) suporte (fazer junto), (c) causa e consequência, (d) mérito/valor, (e) compromisso/espírito de equipe. A escolha da linguagem adequada depende do perfil de sua equipe, mas também fala sobre você e como age diante das situações.

Os hábitos, quando usados de forma consciente são poderosas ferramentas de gestão de pessoas. Falam sobre você tanto quanto os seus discursos em reuniões, comunicados internos ou conversas informais. Eles ajuda a construir a sua reputação, a partir do binômio ação + discurso.

 

Segundo Geert Hofstede (1997), quando certos padrões de pensamento, sentimentos e comportamentos se instalam na mente de cada um, uma programação mental é iniciada. O conceito de programação mental coletiva assemelha-se ao de “habitus” proposto por Pierre Bourdieu: uma base para as práticas e imagens. Torna-se necessário desaprender, antes de aprender algo diferente, e desaprender é mais difícil que aprender pela primeira vez. Existem diversas pesquisas sobre como mudar um hábito. Elas variam de técnica e tempo. Vão de 90 a 120 dias de ação continuada para que a mudança de hábito se estabeleça.

 

Ter consciência sobre os gatilhos que acionam seus hábitos e compreender o que os motivam ajudará a reforçar essa estrutura comportamental, quando for positivo, a seu favor e a modificar, se lhe prejudicar. A inteligência emocional, saber como agir em cada situação, é fundamental.Toda mudança gera desgastes. Exige desaprender e reaprender. Demanda desapego a olhares recorrentes. Uma dica útil é pensar em criar novos hábitos e tornar tais comportamentos recorrentes. Naturalmente, os hábitos que não lhe favorecem serão substituídos pelos novos.

 

Considerando que liderança é um dos soft skills mais importantes para as próximas décadas, segundo o Fórum Econômico Mundial, em seu relatório sobre o futuro do trabalho de 2018 e que leva tanto tempo, é melhor avaliar seus hábitos e começar a substituir os que não lhe ajudam tanto assim. O difícil é olhar no espelho e reconhecer nossas vulnerabilidades e nossas potencialidades. Conhecendo e sabendo gerenciar seus hábitos, vocês conseguirá escolher quando usar cada um deles e agir com o estilo de liderança que for mais conveniente para o contexto organizacional imediato, seja um líder visionário, coach, afiliativo, democrático, marcador de ritmo ou autoritário. Bons hábitos estão na base do alto desempenho.

 

* Eduardo Murad é Doutor em Comunicação, consultor de comunicação e marketing e professor da UFF e da UERJ. 

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