Valor compartilhado - integridade e sustentabilidade

21/04/2020

O negócio de valor compartilhado e a cultura de integridade e sustentabilidade estão intimamente ligados. Mas não é qualquer tipo de relação que dará os resultados desejados. A necessidade está em criar conexões, em ligar iniciativas soltas, em assumir que a interdependência é um dado de realidade. Se alguém tinha dúvidas em relação à interdependência no mundo, a pandemia de coronavírus deixou tudo às claras. 
 

Como viabilizar, então, que uma equipe de facilitadores de integridade e sustentabilidade em uma organização consiga, a partir de suas interações com áreas internas, motivá-las a conceber soluções significativas para o desenvolvimento de uma cultura corporativa baseada em integridade e sustentabilidade?
 

Hoje várias organizações devem estar se perguntando: Como é que a cultura da integridade e sustentabilidade pode se tornar efetivamente um diferencial competitivo ao mesmo tempo em que viabiliza soluções criativas aos desafios econômicos, sociais e ambientais na minha organização? Ou, em palavras mais simples, como é possível criar algo nos moldes de um negócio de valor compartilhado?

 

 

Ao analisarmos um negócio de valor compartilhado, vemos claramente que o negócio em si é lucrativo e ético, os produtos e serviços oferecidos agregam valor a quem os adquire e, além de tudo, resolvem questões críticas de sustentabilidade. Mas para isso, tiveram de rever paradigmas. Um exemplo desta abordagem se dá nos negócios de microcrédito, em que o modelo de concessão de crédito adquire uma lógica de modelagem de risco e retorno diferente da adotada pelo mercado de crédito tradicional. Foi, portanto, a partir de diversos problemas econômicos, ambientais e sociais que a solução do microcrédito foi criada. partindo deste exemplo, fica claro que a primeira questão a ser colocada para reflexão deveria tomar por base o tema central do negócio e onde é possível que ele atue para gerar resultados éticos e sustentáveis. Quais são aspectos que estão em seu entorno que contribuem para a insustentabilidade ética, econômica, social e ambiental? Como é possível interferir para tornar a realidade mais sustentável?
 

Em um negócio de valor compartilhado, como é o caso do microcrédito, o tema central foi o crédito e as questões ao redor desse eixo eram: altas taxas de juros, inacessibilidade do crédito a pessoas sem histórico ou capacidade de pagamento, pobreza, pessoas sendo vitimas de práticas antiéticas, sendo exploradas por agiotas, diversos pequenos negócios que se provavam eficientes e rentáveis desde que com capital de giro acessível e barato. Pronto, bastou um pouco de criatividade e coragem para se desenhar a solução. Mas aí vem outra pergunta: entender o eixo central temático e as questões de insustentabilidade em seu entorno não é difícil, mas como fazemos para ligar as pontas, romper paradigmas e vender internamente em nossa empresa a cultura da integridade e sustentabilidade?

 

Vamos por partes:
 

Como ligar iniciativas soltas – Uma coisa é ter informações acerca dos problemas a serem endereçados para solução, outra coisa é senti-los na alma, criar internamente um sentido de urgência em achar uma solução, sentir a responsabilidade por ter de fazer alguma coisa em relação àquilo, indignar-se com nossa incapacidade de não encontrar respostas simples para sistemas complexos. Ou seja, não basta entrar no Google e pesquisar. É preciso entrar na realidade e sentir. Se o tema de insustentabilidade que está tentando tratar é educação, visite os diversos sistemas educacionais para ricos e pobres, para os que têm a melhor escola e para os que não as têm. Sinceramente, não acredito em negócios de valor compartilhado sem o conhecimento de realidades. Daí para frente, ou seja, sentindo tanto quando sabendo, as conexões entre as pontas soltas surgirão, desde que se tenha efetivamente internalizado, dormido e se indignado com o problema e se tenha a plena consciência de que temos criatividade o suficiente para criar qualquer solução. É preciso acreditar nisso.
 

Romper dogmas nas organizações – Este talvez seja o passo que exija mais. Porque quando estamos em uma organização, estamos imersos em dogmas. Valoriza-se mais o risco do que a oportunidade. Vislumbramos mais facilmente as barreiras do que os trampolins. Então é importante tentar esquecer as amarras. Tente se imaginar, por exemplo, trabalhando em um banco e propondo uma ideia como o microcrédito antes de existir o Grameen Bank. Impossível, muitos diriam. Pois é, só que alguém foi lá e fez. Portanto, seja um pouco desinformado, seja um pouco ingênuo, seja um pouco otimista e se dê a chance de pensar no impensável. Não estou me referindo a fazer aquelas extensas e improdutivas sessões de brainstorming onde surgem chutes sem nexos. Ao contrário, pense em alternativas que façam sentido, onde as pontas se ligam, porém sem se preocupar com os dogmas que a sua organização possa ter.
 

Vender internamente – Ideias fracas são diferentes de ideias arrojadas. Nenhuma proposta fraca de argumentação se vende. Portanto, estou falando de ideias arrojadas e que devem respeitar a lógica de um negócio, ou seja, combinar risco, retorno e arrojo. Quanto mais arrojada, maior a necessidade de se propor projeto-pilotos, de começar pequeno, mas crescer de forma consistente. A melhor maneira de vender é colocando o verbo no gerúndio, ou seja, “vendendo”. Isto significa dizer que devemos conquistar os formadores de opinião um a um, conquistar aliados importantes, respeitar a lógica natural do negócio e propor a implantação em ondas, uma de cada vez. Nada de radicalismo. Não há líderes arrojados em excesso. Pelo contrário, eles são raros. Aposte que, na média, você lidará com pessoas conservadoras e, como consequência, os passos devem ser dados um de cada vez e a conquista será considera um processo.

 

* Fábio Risério é professor convidado da FDC, da FIA e da PUC-Campinas. Atua como facilitador em cursos e workshops e é sócio-diretor da consultoria Além das Palavras: Negócios Éticos e Sustentáveis. 

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