O custo da Poker Face presidencial no caso Joesley

01/08/2017

Falta de posicionamento oficial nas 24h após o vazamento da gravação de Joesley Batista gera deslegitimação da atuação presidencial diante de seus públicos de interesse

 

A expressão poker face pode ser compreendida como sendo “cara de paisagem”, “blefe” e outras coisas semelhantes. A música “Poker Face”, interpretada por Lady Gaga, todavia, pode ser uma metáfora para explicar o comportamento da Presidência da República do Brasil nas 24 horas que seguem a noite de quarta-feira, 17 de maio de 2017, que “congelada” não conseguiu se posicionar para conter a crise, talvez porque nem tivesse o que dizer a respeito de positivo e seguiu jogando como se nada estivesse acontecendo.

 

 

Num relógio que parece não contar os minutos a seu favor, as assessorias de imprensa da Presidência da República pareceram atordoadas com o impacto da divulgação de uma conversa gravada entre o Senhor Presidente, Michel Temer, e Joesley Batista – um dos sócios do grupo J&F.

 

Afora o teor da conversa, tratou-se de um encontro que desobedeceu quaisquer protocolos governamentais entre a presidência do país e um civil – sem qualquer agenda, revista e guarda presidencial. Um trabalho sério de prevenção de riscos poderia ter impedido não somente que tal situação acontecesse, mas também evitado que os danos acometessem diversos setores da economia nacional, impactando diretamente a reputação do país, como aconteceu.

 

Enquanto presidente, Michel Temer personifica a instituição República Federativa do Brasil, assim sendo, suas ações e reações não estão limitadas a si, tais quais os impactos relacionados a elas. Em um cenário em que os diversos atores gozam da mesma probabilidade de confiança, a notícia do vazamento da gravação protagonizava as redes sociais e ganhava legitimidade à medida que curtidas e compartilhamentos ganhavam volume. Quanto mais o tempo passava, mais distante ficava a possibilidade de reverter o que se construía ali.

 

O que se viu, nas horas que sucederam a notícia do vazamento da gravação foi um número cada vez maior de rumores ganhando espaço, enquanto a mudez seletiva da assessoria de imprensa recusava-se a pronunciar-se “oficialmente” em cadeia de rádio e TV, como se esperava dada a gravidade da acusação.

 

A mensagem que se propagava quase que em uníssono ganhava forma e dimensão, tamanha a pluralidade de fontes que publicavam e replicavam a todo instante não somente as especulações a respeito do conteúdo de tal conversa, mas também demandavam um posicionamento da Instituição em questão – a Presidência da República. Neste [des]feito, poucos não foram os custos gerados e que impactaram diretamente a imagem do Brasil frente às suas sociedades, seus públicos de interesse, seus stakeholders.

 

Durante as aproximadas 24 horas que seguiram ao vazamento da conversa, não houve qualquer comunicado oficial (pronunciamentos, notas, comentários de caráter oficial emitido pela assessoria de imprensa da Presidência da República), levando a uma avalanche de deslegitimação do poder executivo e consequentemente, de seu líder, que sustentava sua “cara de paisagem”.

 

Quando fazemos uma pesquisa rápida considerando os termos “Michel Temer” em um site de busca e filtramos a pesquisa para o intervalo que compreende a data de 17 de maio de 2017, vêm à tona 77 páginas de notícias a respeito do impacto da crise para o país, nas quais, o destino de seu representante é citado em todas. Desta forma, de acordo com o observado por Mitsuru Yanaze é possível considerar que:

 

i) houve problemas na fase intermediária de construção da narrativa, responsabilidade imputada à organização por não atender às expectativas dos públicos de interesse;


ii) não houve qualquer esforço envidado no desenvolvimento das duas primeiras fases do processo, manchando, na verdade a imagem e reputação da organização nos cenários nacional e internacional.

 

A poker face mantida diante da crise que ganhava massa com o passar dos instantes tornou a crise mais cara para o país que ainda se recupera de um processo de impeachment.


Segundo Doris Brasil, a pior coisa que uma empresa/instituição poder fazer em momentos de crise é bancar o avestruz, fazer apenas teleconferências formais para a apresentação de resultados, ou diminuir reuniões com analistas e bancos de investimento, ainda que em tempos difíceis. Nos momentos de crise, a organização deve vir a público mostrar o que está fazendo para enfrentar as adversidades para re credibilidade.

 

A análise desenvolvida em minha monografia de graduação em Relações Públicas na ECA USP, que teve a orientação do professor Paulo Nassar, permitiu constatar que a estratégia de narrativa selecionada pela assessoria de imprensa da Presidência da República não foi muito além do blefe que não deu certo.

 

Bruno Ribeiro é Graduando em Relações Públicas.

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