Entrevista: Alfried Plöger, Presidente da ABRASCA

Os últimos anos foram delicados para as empresas brasileiras, com sucessivos escândalos envolvendo grandes símbolos nacionais. 2018 é um ano de eleições para presidente da República, o que, em geral, representa incerteza para a economia. Em busca de um pouco de esperança, a editora da Revista da Reputação, Tatiana Maia Lins, conversou com Alfried Plöger, presidente do Conselho Diretor da Associação Brasileira das Companhias Abertas - ABRASCA sobre o cenário das companhias abertas brasileiras.

 

A boa notícia? A confiança dos investidores nas empresas brasileiras não envolvidas em investigações parece não ter sido afetada. Em 2017, batemos o recorde de emissão de debêntures (títulos emitidos pelas empresas em busca de financiamento de investidores com custos, condições ou garantias melhores para as empresas do que o financiamento bancário tradicional.)

 

"Não sei precisar em que medida a Lava Jato moralizou as concorrências públicas, embora acredite que sim, que o efeito seja positivo"  Alfried Plöger. Foto: Flávio Guarnieri/Abrasca

 

 

Tatiana Maia Lins: Alfried, como está a confiança dos investidores estrangeiros em relação às empresas brasileiras?
Alfried Plöger: Não acho que tenha ocorrido qualquer alteração em relação às companhias abertas privadas que não tem envolvimento como fornecedores de governos Federal ou Estaduais. Para essas companhias, o mercado é de recuperação de preços e busca de oportunidades. Naturalmente, a perda do grau de investimento pela jurisdição pode encarecer os custos de colocação de títulos de dívida pelas companhias, mas o mercado segue aberto e no ano passado batemos recorde de emissão de debêntures.

 

E em relação aos investidores internos, há alguma diferença no comportamento?
Também não vejo grandes mudanças, fora que a falta de um rating “investment grade” atrapalha menos.

 

Qual a expectativa das companhias abertas em relação a este ano de eleições no Brasil?
Os anos eleitorais possuem comportamentos bem característicos de expressiva elevação na volatilidade dos preços das ações e incremento da moeda em circulação. A consequência desses dois fatores combinados é um mercado acionário mais arredio, com predominância de investidores de curto prazo, pressão sobre os índices de preços ao consumidor e aceleração no desempenho dos setores ligados ao comércio de bens não duráveis e à prestação de serviços. Acredito que 2018 não será diferente, com o agravante de termos os recursos ao TRF-4 como mais uma variável.


As companhias abertas brasileiras sentiram impacto em bloco com os escândalos que aconteceram nos últimos anos? 
Sem dúvida, as companhias abertas com participação do setor público sentiram expressivo impacto na medida em que foram alvo de investigações e novas regulamentações, como a lei de governança de estatais (Lei 13.303). Para o setor privado, a consequência maior foi a elevação do custo de conformidade dado que a principal medida da CVM em resposta aos escândalos envolvendo companhias abertas onde os governos Federal e Estaduais são importantes stakeholders, seja como acionista relevante seja como cliente de expressão, foi a criação do Informe de Governança do CBGC – Código Brasileiro de Governança Corporativa. A criação do Informe como instrumento obrigatório já é um custo para permanência no mercado.


Qual o impacto da Lava Jato para a concorrência real das empresas brasileiras?
As companhias envolvidas na Lava Jato são, majoritariamente, companhias que já concorriam menos no setor privado em igualdade de condições. São empresas geralmente que atuam no setor de infraestrutura, cujos principais clientes são os governos Estaduais e Federal. Não sei precisar em que medida a Lava Jato moralizou as concorrências públicas, embora acredite que sim.


Qual o calcanhar de Aquiles, o que impede que as companhias brasileiras gerem mais riqueza para o país, para os seus investidores e para a sociedade?
Os custos de observância e de conformidade, além da ausência de uma poupança privada livre que não seja drenada pela despoupança do setor público.


Qual o grau de amadurecimento das companhias abertas brasileiras em relação aos outros países com características similares ao Brasil?
Muito superior. As companhias brasileiras estão em patamares bem superiores que seus pares no mundo. Temos vários exemplos evidentes como a Localiza, que acabou de adquirir a maior locadora de veículos do mundo (Hertz), o ItauUnibanco que é um dos bancos mais rentáveis do mundo e já é o maior banco nos países do Mercosul, a Gerdau que vem mostrando um dinamismo quase de “start up”... Enfim, as companhias brasileiras são exemplos positivos para as cias dos BRICS e também para jurisdições desenvolvidas.


Como você avalia o caso Eike Batista e as empresas X? Eike dizia que as suas empresas cumpriam os mais altos padrões de governança e compliance por estarem listadas em bolsa .
Na minha visão, o Eike Batista é um empreendedor – como há muito não se via no Brasil - que fez duas escolhas equivocadas: (i) investir em um setor onde a expertise estava totalmente concentrada em um único player, que é a Petrobras, e (ii) concentrar praticamente 100% de suas iniciativas de investimentos em projetos “green field”, que são naturalmente mais arriscados por seu estágio embrionário.


Os resultados obtidos nas áreas de produção adquiridas pela OGX ficaram muito distante do que os técnicos contratados pela companhia haviam previsto. Em adição, houve reversão conjuntural do preço do barril de petróleo, afetando todo o setor como outro empreendimento chave do “Grupo X” que era a OSX.


Enfim, acredito que a história do “Grupo X” teria sido diferente caso os resultados da OGX tivessem sido mais próximos às projeções preparadas pelos técnicos da companhia.


Em que a Ambev difere das outras empresas listadas em bolsa no Brasil? Um estudo do Reputation Dividend, lançado no final do ano passado, mostrava a Ambev como a empresa com o maior prêmio de reputação na bolsa brasileira, com mais de 45% de seu valor de mercado oriundo de reputação.
Acredito que a Ambev tenha um fator muito importante em seu DNA que é seu alicerce em termos reputacionais, além é claro, das práticas de governança e ética empresarial que a empresa implementa em todos os ativos que adquire. A Ambev nasceu da fusão de duas companhias importantes e relevantes no mercado brasileiro: Brahma e Antarctica. Além de expressivas, eram empresas PRIVADAS e, pela própria característica do produto, o setor público não é – nem poderia ser– grande consumidor dos produtos da companhia.

 

* Tatiana Maia Lins é consultora em Reputação Corporativa, diretora da Makemake - A casa da Reputação no Brasil, editora da Revista da Reputação e idealizadora do Movimento Reputação Brasil >> Caminhos para o Amanhã
 

 

 

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