• Tatiana Maia Lins

4 perguntas sobre construção de valor para acionistas apesar da pandemia

Estreamos hoje um novo formato de entrevista na Revista da Reputação, o de 4 perguntas essenciais sobre temas de grande interesse para os nossos leitores. A ideia é ir direto ao ponto, porque tempo e atenção são, a cada dia, mais valiosos.

Nosso primeiro entrevistado neste formato é Rodolfo Zabisky, chairman do MZGroup, que falará sobre o acompanhamento que a MZ Insight - braço de consultoria estratégica da MZ, agência especializada em Relações com Investidores - vem fazendo das transações na B3 durante a pandemia de coronavírus. O estudo é interessante porque mostra as empresas que estão conseguindo valorização de suas ações apesar da pandemia, o que sugere que mesmo uma crise global afeta empresas do mesmo setor de diferentes maneiras. As empresas estão no mesmo mar revolto, mas não no mesmo barco, definitivamente. Veja a seguir.

Tatiana Maia Lins: 01) A MZ, por meio do seu braço de consultoria estratégica (MZ Insight), vem divulgando, toda sexta-feira após o fechamento do pregão na B3, desde o dia 20 de março de 2020, um relatório com uma análise sobre a valorização de mercado de 141 empresas, agrupadas em 23 setores, para que os investidores saibam o que está acontecendo com as empresas em meio a esta pandemia de coronavírus. Quais as principais tendências que vocês conseguiram identificar neste período?

Rodolfo Zabisky: Na última sexta feira, feriado de 01/05, completamos mais uma análise e construímos, especialmente para a Revista da Reputação, dois gráficos dinâmicos com a evolução do Gap de Valor iQ (“GViQ”) para as empresas que compõem os segmentos de energia e de real estate.

“1-GViQ” - Gráfico dinâmico setor energia

“1-GViQ” - Gráfico dinâmico setor real estate

As animações acima foram construídas com “1-GViQ”, que representa o percentual que as empresas estão do seu Market Cap potencial, sempre em comparação com a empresa-estrela (aquela de maior Índice de Valor iQ – IViQ, na data da análise). Quanto mais próximas de 100% nesses gráficos, as empresas estão melhor precificadas pelos investidores. Quanto mais distantes do 100%, maior o Gap de Valor para a empresa-estrela do setor e menor valor patrimonial dos acionistas.

Então, com base na observação dos movimentos em cada um desses dois setores, podemos observar as seguintes tendências (para o período de 20/3 a 1/5):

a) No setor de energia: Eneva, Taesa e CESP são as empresas melhor precificadas pelos investidores, e se alternam na posição de empresa-estrela. A CESP encerrou 1/5 na liderança do setor em valor aos acionistas. Um segundo bloco de empresas, composto por Equatorial, Engie, CPFL e Neoenergia compõe um outro bloco que negocia com cerca de 35% de desconto em relação às três líderes.

b) No setor de real estate: EZTEC e Tenda são as empresas melhor precificadas pelos investidores, e se alternam na posição de empresa-estrela. A Tenda encerrou 1/5 na liderança do setor em valor aos acionistas. Uma terceira empresa, a MRV, vem consistentemente ganhando terreno (criando valor aos acionistas) e encostou nas duas empresas melhor avaliadas no momento.

E qual a relevância disso? Bom, ao final de janeiro de 2020 o mercado acionário estava em seu ponto alto, e nos três meses seguintes vem sofrendo com quedas de 50% ou mais. Se fôssemos avaliar a qualidade dos executivos pelo preço das ações, raros seriam os casos de um desempenho levemente positivo. A grande maioria dos executivos deveria ser trocada?

Olhando agora pelo prisma desses novos indicadores (IViQ e GViQ), que são simples e independentes, e expurgam em grande parte a influência do preço da ação, pode-se verificar o posicionamento dessas empresas em suas respectivas jornadas de criação de valor aos acionistas, quem está ganhando ou perdendo terreno. E é isso que, entendemos, melhor qualifica a resiliência dos negócios e a excelência dos executivos.

02) O que as empresas estrelas têm em comum que as diferem de suas concorrentes de mercado?

Essa é uma resposta que vale US$ 1 milhão. Eu costumo fazer um paralelo com um termômetro. Um instrumento simples que consegue identificar quem não tem febre, quem tem uma leve febre e quem está realmente doente.

Uma vez identificados os melhores ou os problemas (e isso os indicadores IViQ e GViQ fazem bem e com rapidez), a elaboração de um diagnóstico do sucesso (empresas-estrela) ou dos “por quês” empresas são negociadas com grandes descontos requer ressonância, ultrassom, exames de sangue, etc.

De uma maneira simplista, as empresas-estrela são aquelas que os investidores aceitam pagar um múltiplo maior para se tornarem sócios, por acreditarem que ela vai apresentar maior lucro que as demais, crescer mais, ganhar mercado, inovar e etc., com sustentabilidade.

Vale ressaltar que um componente extremamente importante no valor das empresas-estrela é a reputação corporativa. Estudo sobre o valor de mercado de ativos intangíveis da Ocean Tomo mostra que o componente intangível (que inclui reputação corporativa) no valor total de mercado das empresas vem crescendo consistentemente ao longo dos anos, como mostra a figura abaixo.

03) Que conselho vocês dariam para as empresas neste momento para a excelência em relação à comunicação com os investidores?

Boa comunicação com o mercado é importante. Entretanto, mais importante do que “comunicar bem” é ter o que comunicar, ou seja, uma “boa história”. Ou seja, um bom comunicador consegue encantar alguns por algum tempo. Mas isso não cria valor no médio-longo prazo, e acredito que pode até impactar negativamente as companhias, pois provavelmente elas irão falhar em entregar as promessas do bom comunicador.

Empresas precisam construir as suas estratégias próprias e únicas de gestão de valor e reputação. Definir um propósito corporativo engajante (curva de valor), que auxilie na implementação (cadeia de valor, programas de ação, alinhamento, etc.) e na geração de resultados no upgrade da reputação corporativa (intangível).

Se a empresa tem um história sólida e boas perspectivas, o mercado reagirá positivamente se ela atender os princípios básicos em sua comunicação: (i) facilite acesso à informação (a empresa tem conteúdo); (ii) pratique igualdade de tratamento e transparência; e (iii) entregue o que prometer (eficiente gestão de expectativas).

04) E para os investidores, qual o principal conselho neste período de tantas incertezas por causa da pandemia do coronavírus?

Investidores são bastante sábios para identificar oportunidades tanto em mercados crescentes como em crise. Em épocas de incerteza, apostar na segurança parece um bom conselho. Segurança nessa caso significa um bom cavalo (negócio resiliente e sustentável) com um bom jóquei (equipe de executivos).

* Tatiana Maia Lins é CEO e fundadora da consultoria Makemake - A casa da Reputação, editora da Revista da Reputação, palestrante e professora na ESPM SP e de cursos e treinamentos in company.

© DNA Criativo