As soluções para o assédio

Aproveitamos o caso do ator José Mayer para falar sobre o assédio no local de trabalho. Difícil de ser mapeado, ele pode derrubar o entusiasmo de uma equipe, destruir a autoestima de um profissional, gerar uma crise de imagem e demolir a reputação de uma marca

 

Há uma chance muito grande de que o assédio moral, sexual e o chamado bullying organizacional esteja acontecendo no seu local de trabalho. Você pode nem perceber e muitas vezes nem querer acreditar, mas em qualquer situação que envolva algum tipo de poder, esse risco existe e por isso, os locais de trabalho com suas hierarquias são espaços propícios para o florescimento desse tipo de comportamento.

 

Um assediador ou uma assediadora é aquela pessoa que pratica um tipo de comunicação perversa, desvirtuada de sua função social que é se fazer entender. Quando o assédio é a alavanca da relação, o diálogo é torpe pois a palavra vestida como cordeiro é um lobo disfarçado, pronto para impor seu monólogo autoritário sobre a sua vítima. Roteiro de ordens de duplo sentido, sarcasmos, silêncios prolongados ou cobranças sem critério ou lógica, o assédio moral é feito de mentiras e engodos e pode chegar até aos contatos físicos não permitidos.

 

De acordo com o Workplace Bullying Institute dos EUA, o assédio pode ser identificado pelas seguintes características: comportamentos que são ameaçadores, intimidantes ou humilhantes; sabotagem do trabalho, minando o desempenho; exploração de uma vulnerabilidade conhecida ou alguma forma de combinação dos três itens acima. Do meu ponto de vista de comunicador, percebo ainda um elemento a mais nesse cardápio que seria a comunicação perversa ou como o próprio Instituto define o “abuso verbal”.

 

Quem faz um bullying inocente pode crescer e se tornar um assediador de grande porte? Acredito que sem limites, uma pessoa poderosa num cargo de liderança, pode causar danos psicológicos nos mais novatos e nos subordinados que, amedrontados, mergulham cada vez mais nas teias neuróticas do assédio.

 

Conheci muitas empresas e chefes cujas energias - climas de trabalho - transpiravam uma cultura baseada no bullying. Mesmo que seus valores e códigos de ética estampassem diretrizes de respeito no papel, na vida real dos corredores a conversa era outra.

 

O assédio é um fenômeno humano

Percebo o assédio como não tendo cores. Como fenômeno humano de perversidade e egoísmo ele acontece entre os iguais, em gênero, raça, classe. Acontece principalmente nas relações cuja hierarquia de poder são mais distantes. Um chefe inapto diante de um novo talento na empresa, um diretor e um gerente imediato, um adulto pedófilo e uma criança. As formas são variadas, mas necessariamente envolvem o poder. Poder de comando, de decisão, de influência, de sedução.

 

Mas nessa relação de iguais, uma das pessoas é mentalmente diferente. Pessoas sem caráter sabem se esconder por trás de máscaras e no pior dos cenários, não sentem culpa ou remorso pelos seus atos. Muitas vezes são pessoas inseguras e por isso descarregam suas neuroses sobre os outros (talvez elas mesmas tenham sofrido bullying quando crianças). O que percebo é que tipos assim possuem um egoísmo extremado que comanda e desqualifica o outro, em pequenos gestos, no tom de voz, no duplo sentido de suas argumentações.

 

A regra do assédio é humilhar o semelhante para sentir-se mais poderoso. Destruir a autoestima e a dignidade de um colega de trabalho e ter alguns instantes de satisfação. Contudo, é preciso muito autoconhecimento para percebermos que nossos sentimentos não são causados pelos outros, mas pelas nossas próprias questões pessoais e necessidades individuais diante de determinadas situações e diante de diferentes relacionamentos. Desconfio que o encontro entre um sádico e um masoquista daria uma união perfeita com final trágico.

 

Empatia e comunicação não violenta são as soluções

A vítima de assédio ao permitir o jogo neurótico - nem sempre percebido de imediato - abre os flancos para perder seu ponto de equilíbrio, deixar-se dominar psicologicamente. O médico Gilberto Uruhany, em seu livro “Emoções e Saúde” aponta para a comunicação empática como uma saída para um mundo repleto de preconceitos, mal-entendidos e conflitos de toda ordem. Especialista em medicina preventiva e saúde corporativa ele defende a comunicação não violenta como alternativa para “revolucionar as relações intrapessoais, interpessoais e sociais”.

 

Para empresas públicas ou privadas que desejam realmente buscar ambientes de trabalho mais saudáveis, com relações humanizadas a comunicação interna pode ser utilizada de forma a evitar riscos e crises geradas a partir do bullying, do assédio moral e sexual. Práticas de team building, rodas de conversa, coach para gestores, palestras, canais de Ouvidoria, publicação e divulgação de manuais de conduta e a disseminação do Compliance na organização são medidas concretas nesse sentido.

 

As soluções, portanto, existem.

 

Luiz Antônio Gaulia é Consultor em Comunicação, Sócio Diretor da Talk the Walk Comunicação

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