Onde estão as mulheres? Estão em toda parte

27/04/2017

Movimentos #ondeestãoasmulheres e #aquiestãoasmulheres ressaltam protagonismo feminino em todas as áreas do conhecimento com um post por dia

 

Sou cearense. Fui a primeira neta e sobrinha do lado materno da minha família. Cresci cercada de homens por todos os lados. Avôs, pai, 21 tios, todos com suas carreiras e vidas profissionais muito bem definidas, valorizadas e reconhecidas.

 

As mulheres da minha infância, adolescência e juventude não tinham uma carreira. A grande maioria era “do lar”, esposa e mãe em tempo integral. Algumas, embora tivessem feito faculdade, não tinham propriamente uma profissão, mas sim uma ocupação, uma atividade que preenchia o tempo livre, mas não atrapalhava as obrigações domésticas. Minha mãe foi a primeira mulher da família a cursar uma universidade, nos turbulentos anos 1960. Mas não seguiu a carreira. Esse era o padrão. Éramos educadas para casar, ter e criar filhos, manter a ordem e a paz do lar, para que nossos maridos pudessem progredir e brilhar em suas carreiras. Essa, definitivamente, não era a vida que eu queria para mim.

 

Mas como eu podia desejar ser algo que eu não via? Intuitivamente, decidi romper com o padrão, mudar de ambiente, começar uma história onde eu pudesse ser a protagonista, correr riscos, testar caminhos e aprender com meus erros e acertos. As mulheres da minha geração, provavelmente a primeira ou segunda a entrar formalmente no mercado de trabalho, tiveram que seguir o modelo vigente. Não havia lideranças, mentoras ou modelos femininos. Invadimos um espaço masculino e tivemos que aprender a navegar do jeito que dava, nos adaptando ao estilo e às regras estabelecidas pelos homens.

 

Levamos muito tempo para perceber os vieses inconscientes que regiam nossos destinos e entender que precisávamos remover as barreiras, empoderar as mulheres, promover a equidade de gênero na sociedade e o equilíbrio entre nossa vida pessoal e profissional. Nós, mulheres ocidentais, demoramos algumas décadas para ter a consciência de que juntas somos mais fortes, que nosso estilo de liderança não é melhor nem pior que o estilo dos homens. Somos complementares. E quanto mais diverso, equânime e justo for nosso ambiente de trabalho, melhores serão nossos resultados em todos os sentidos, inclusive o financeiro.

 

Eu, particularmente, levei mais de 20 anos de vida executiva e 11 anos de carreira de mãe para me dar conta de que eu era uma liderança feminina e que tinha a missão de trabalhar para transformar o mundo num lugar melhor, mais justo e mais igualitário para a geração das minhas filhas. Há pouco mais de dois anos me tornei uma ativista em prol do empoderamento feminino e da equidade de gênero.

 

Ano passado, comecei a me sentir profundamente incomodada com a nossa falta de representatividade em todos os setores da sociedade. Se somos quase 52% da população brasileira, responsáveis por 80% das decisões de consumo no Brasil e ocupamos 60% das vagas nas universidades, por que não somos devidamente representadas?

 

Passei a imaginar o que pensaria um marciano que chegasse ao Brasil e começasse a ver as matérias e notícias nos nossos veículos de comunicação, os posts e vídeos nas nossas redes sociais, nossos anúncios e campanhas publicitárias, a programação e os palestrantes dos nossos eventos, ilustrados em sua imensa maioria por figuras masculinas. Juntando isso ao desolador prognóstico de que levará no mínimo 80 anos para que nossas mulheres estejam em condições de igualdade com os homens, decidi fazer o que estava ao meu alcance para ajudar a dar luz a essa questão.

 

Iniciei uma curadoria de conteúdo de matérias, posts, anúncios, capas de revistas, eventos, entre outros, que evidenciassem a predominância, quase totalitarismo do viés de gênero masculino com que representamos nossa sociedade. Usando meu celular, comecei a fotografar essas imagens, criei uma fanpage no Facebook, a hashtag #ondeestãoasmulheres e passei a fazer um post por dia nas minhas redes sociais – LinkedIn, Instagram, Twitter e Facebook. O “movimento” começou absolutamente despretensioso e confesso que eu tinha a esperança de que, ao final do primeiro mês, o conteúdo acabasse.

 

Não acabou. Ao contrário, multiplicou. Descobri que eu não estava sozinha. Uma imagem por dia, especialmente no LinkedIn, começou a dar voz e a mobilizar uma legião de pessoas que sentiam o mesmo incômodo e que talvez não soubessem como comunicar seu sentimento. Também teve o poder de começar a dar luz à questão para outros que não percebiam isso.  Além de incomodar quem insistia em negar as evidências e em reafirmar seus pontos de vista de que isso não acontecia.

 

Recebi todo tipo de manifestação, a grande maioria de agradecimento por eu ter começado o “movimento” e de incentivo para seguir em frente. Algumas mensagens, contudo, foram bem agressivas, pessoalmente ofensivas e machistas. Mas mantive o propósito de fomentar a discussão do assunto e, assim, ajudar a acelerar a mudança em prol da real representatividade feminina na sociedade brasileira. Todavia, percebi que mostrar só o copo “meio vazio” não era suficiente. Era necessário mostrar o copo “meio cheio”, promover os exemplos existentes e aumentar a visibilidade da nossa representatividade em todas as esferas da sociedade.

 

Foi quando eu criei a hashtag #aquiestãoasmulheres. Para evidenciar que as mulheres podem ser o que elas quiserem, estão presentes em toda parte, com destaque e sucesso. Como eu não aguentava mais ouvir alguém dizer que não encontrava porta-vozes, palestrantes ou personagens mulheres, comecei a também mostrar uma por dia nos meus posts. E descobri que evidenciar os exemplos positivos é ainda mais engajador. Dá orgulho, mobiliza e faz querer continuar. Juntos. Mulheres e homens. Porque essa causa é de todos nós. Nossas meninas e meninos têm o direito de crescer sem vieses e estereótipos de gênero. E sonhar em ser aquilo que eles veem todos os dias, em todos os lugares. Afinal de contas, se você pode ver, você pode ser.

 

* Neivia Justa é jornalista, marketeira, empreendedora, mãe e lidera a Diretoria de Comunicação e Responsabilidade Social Corporativa da Johnson & Johnson Consumo para a América Latina

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