Balanço de Rio 2016: porta-vozes precisam de maior treinamento intercultural

Há muito para contar e pensar após a passagem de mais de 10 mil atletas olímpicos e um milhão de turistas pelo balneário carioca, especialmente quando um evento que começou com os piores prognósticos termina em festa.


A exposição dos problemas da cidade e de um país em crise ultrapassou fronteiras numa progressão desconhecida até então. E foi assim até cerimônia de abertura, quando a gambiarra de Fernando Meirelles reverteu as expectativas negativas e o Rio realizou 306 provas em estádios e arenas espalhadas em um cenário de grande beleza.


Se, durante 17 dias da primeira olimpíada sul-americana assistimos a grandes momentos de superação esportiva, houve também tropeços inesperados, mais pelo descompasso de códigos culturais do que pela barreira das línguas. Um exemplo foi o constrangimento causado pelo prefeito do Rio, quando respondeu às críticas da delegação australiana sobre as condições da Vila Olímpica, sugerindo um canguru para que se sentissem em casa. A intenção de brincar e minimizar os problemas repercutiu negativamente na imprensa internacional como desrespeitosa e, por fim, trouxe um aprendizado sério: australianos, como muitos outros povos, não brincam em serviço. Refletindo sobre o incidente, até que ponto a mancada de Paes pode virar referência sobre se somos ou não uma cidade de gente capaz e confiável? Quantos representantes políticos e líderes de fato se preparam culturalmente e aprendem a dar conta de outras visões de mundo, valores e comportamentos, evitando consequências indesejadas?


Enquanto isto, nas arenas olímpicas começava uma nova onda de críticas, desta vez por causa do barulho nas arquibancadas. Para a Agência Reuters, “torcedores brasileiros vaiavam atletas em choque cultural”, e para o El País o “público de futebol desconcentrou atletas de tiro”, além de outras modalidades. Como dizia Tom Jobim, “o Brasil não é para principiantes” e fica difícil explicar como o espírito olímpico pôde ser violado justamente na terra da alegria e dos anfitriões cordiais. Ainda que a energia e vibração junto com a própria organização das competições tenham garantido o sucesso da Rio 2016, o que poderia ter sido diferente? 


Lochte foi o “americano feio”
Olhando para trás, faltou formar uma “torcida olímpica” nacional (e não apenas “de futebol”), informando jovens e adultos sobre o que é o espírito olímpico; como são as 42 modalidades esportivas e as regras para que os fãs demonstrem admiração e respeito aos atletas sem comprometer seu desempenho. Escolas, imprensa e a sociedade, enfim, todos podem ajudar a difundir estes conhecimentos, aprendendo a dosar a emoção nos momentos críticos e experimentado uma nova cultura de torcida. Ou, então, corremos o risco de permanecer principiantes aos olhos do mundo.


No lado estrangeiro, o maior tropeço ou gafe foi mesmo o protagonizado pelo medalhista Ryan Lochte. Seu falso relato sobre um assalto no Rio de Janeiro causou indignação internacional, “por difamar injustamente [os] anfitriões e desviar para longe a atenção das conquistas históricas da equipe dos EUA”, como disse Scott Blackmun, diretor-geral do Comitê Olímpico dos EUA. 


Por seu mau comportamento o nadador, perdeu a credibilidade e foi duramente punido também por seus patrocinadores, que preferiram ficar longe do pior estereótipo possível – do “americano feio” que se acha superior a tudo, sendo odiado pelo mundo todo por isto. E piadas com trocadilhos associando o nome dele a mentiras viralizaram nas redes sociais. 


Obrigado britânico surpreendeu
Se Lochte desperdiçou até a oportunidade de se desculpar de verdade, visitantes estrangeiros, que encheram um painel no aeroporto do Galeão com mensagens de despedida e desculpas pelo nadador, mostraram como pessoas comuns selam laços entre os povos através de gestos simples, como os britânicos, por exemplo, que surpreenderam, ao final, usando uniformes com a palavra “obrigado”em Português. 
No balanço geral da bem-sucedida Olimpíada carioca e seu legado de experiências, ficou um impulso de  seguir de um jeito novo, recebendo visitantes e apoiando atletas dos quatro cantos, como começou a acontecer na Paralimpíada Rio 2016. 

 

* Denise Coronha Lima é Consultora Intercultural e Diretora da Rio Total Consultoria

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