Petrobras aposta em Governança para reconquistar confiança

“A Petrobras só continua existindo porque o Brasil quer que ela exista. Falando em números, ela está quebrada.” O comentário forte é do professor doutor da FGV-RJ/Ebape, Marco Túlio Zanini, em conversa com a Revista da Reputação em 03/2016. O professor se referia ao fato de que a Petrobras não apenas acumulou prejuízos recordes nos últimos dois anos (veja abaixo), como está vendendo seus ativos para diminuir o endividamento por meio do programa de desinvestimentos, que tem como meta arrecadar até o final de 2016 mais de US$ 15 bilhões. O comentário foi usado para abrir esta matéria como alerta e síntese de como a Petrobras tem sido vista pelos formadores de opinião em decorrência do escândalo de corrupção em que está envolvida, combinado com fatores econômicos como a desvalorização do real frente ao dólar e a queda do preço do petróleo internacionalmente.   


Mas se é verdade que os números não são nada favoráveis, também é verdade que o Brasil quer que ela continue existindo, como símbolo de nosso orgulho nacional. E, para sobreviver, a Petrobras precisa promover mudanças concretas em seus processos internos e em sua cultura organizacional para reconquistar a confiança perdida com a corrupção. Comunicação sozinha, por melhor que seja, não faz milagre. 


Apenas para contextualizar, a Petrobras estava em 2011 no quinto lugar na classificação das maiores petrolíferas de capital aberto do mundo. Em valor de mercado, foi a segunda maior empresa do continente americano e a quarta maior do mundo, no ano de 2010. Em setembro de 2010, passou a ser a segunda maior empresa de energia do mundo em valor de mercado, segundo dados da Bloomberg e da Agência Brasil. Em 2014, a Petrobras teve um prejuízo de R$ 21,587 bilhões, o primeiro desde 1991. A perda de dinheiro por causa corrupção em 2014 foi de 6,194 bilhões de reais. Em 2015, a Petrobras registrou um prejuízo de R$ 34,8 bilhões, em decorrência de fatores relacionados a baixas nos campos de petróleo, ao preço internacional do barril, à crise causada pela Operação Lava Jato, dentre outros.


Contudo, os prejuízos não se restringem à empresa e a seus acionistas. O escândalo produziu um efeito dominó que vem afetando as construtoras, milhares de pessoas que já perderam emprego e tiveram as suas vidas afetadas por obras paradas ou suspensas, assim como empresas que vendiam matéria-prima para a construção civil. Toda a cadeia de stakeholders prioritários foi atingida pelo escândalo. Em última instância, a sucessão de escândalos na Petrobras contribuiu para enfraquecer a imagem de Dilma e tirá-la da presidência. Em menor escala, motoristas de Uber contam que até pouco tempo eram empresários que  forneciam insumos para prestadores de serviço da Petrobras. As perguntas que ficam são: será que os envolvidos em corrupção na Petrobras tinham noção do tamanho do estrago que poderiam causar à reputação da empresa, consequentemente afetando a vida de tantas pessoas? Ou sabiam e ainda assim agiam na certeza da impunidade?


O que sabemos é que a reputação há muitos anos é tema prioritário da Comunicação Institucional da Petrobras, abocanhando, inclusive, prêmios em congressos internacionais. Mas a comunicação não garante boa reputação se não há boas práticas de gestão. E, assim, um bom trabalho de anos na construção da imagem vira pó ou na, melhor das hipóteses, um colchão reputacional desgastado.  

 

Suspeita de superfaturamento na compra de Pasadena iniciou a crise
Um dos maiores geradores de crises para marcas estatais é a indicação política de seus executivos, fato recorrente na mídia em disputas de poder que não prezam pela meritocracia. Outra grande geradora de crises, em empresas de todos os portes e setores, é a cultura organizacional que afrouxa a vigilância, deixando com que poucas pessoas tenham muito poder e se sintam intocáveis e fora de qualquer regime de punição. Na Petrobras, esses dois fatores estavam presentes, como uma bomba-relógio. 


As suspeitas de corrupção começaram com as dúvidas sobre a compra da refinaria de Pasadena que vieram a público em 03/2014, agravando-se com as denúncias da Operação Lava-Jato, desde 2014. 
A presidente da Petrobras na época, Graça Foster, prestou depoimentos no Congresso e, em decorrência da crise política resultante das denúncias, renunciou ao cargo em 02/2015. O presidente anterior a ela, Sergio Gabrielli, chegou a admitir na CPI, em 03/2015, que era impossível identificar a corrupção na Petrobras. Esta declaração foi extremamente mal recebida pelo mercado, somando ainda mais incertezas sobre as tomadas de decisão da empresa, o que agravou a crise.   
 
Mudança de cultura é um processo lento e gradual em estatais
No atual cenário tão negativo - Rodolfo Zabisky, CEO da MZ”, por exemplo, afirma que a Petrobras poderia valer US$25 bilhões a mais para os acionistas caso fosse percebida como a ExxonMobil - a Petrobras vem apostando em mais governança para reconquistar a confiança dos stakeholders. Esta é uma aposta tecnicamente correta e esperada pelo mercado. Resta saber se os gestores conseguirão promover a tão desejada mudança de cultura.


Dentre as mudanças anunciadas no final de janeiro de 2016, a Petrobras sinalizou que a indicação política para cargos não fará mais parte do modelo da empresa. Para nós, esta postura deveria ser seguida por todas as estatais, principalmente as de economia mista, em busca de mais eficiência e transparência. 
A Petrobras também anunciou o corte de executivos, fundindo departamentos, prevendo, a longo prazo, uma diminuição de 43% em seus gestores, novos critérios para a indicação de gerentes e responsabilização formal de gestores por resultados e decisões. 


Durante o pronunciamento, o atual presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, afirmou que as mudanças serão aprofundadas ao longo do tempo e que o novo modelo, para ter sucesso, precisa ter o engajamento de toda a empresa, em um processo de construção coletiva. Porém, corre a boca miúda entre alguns fornecedores da Petrobras a quem tivemos acesso e que por questões óbvias não quiseram se identificar uma certa descrença de que as mudanças realmente surtirão efeito. Há exemplos de outras companhias em que a necessidade de duas assinaturas no pedido de licitação não impede a corrupção, visto que pessoas de má-fé unem-se facilmente para tirar ou perpetuar vantagens. Em geral, toda empresa sabe quem são os seus corruptos. 


O professor doutor Manoel Marcondes Neto, cofundador do Observatório da Comunicação Institucional, questiona-se o que mais deveria fazer a Petrobras diante do descrédito que a vitimou nos últimos tempos. “Criar um telejornal em rede nacional de TV?”, brinca. “Criar uma diretoria integralmente dedicada ao compliance foi a medida adotada. Resta aos acionistas e à opinião pública interessada dar credito às mudanças antes de sacramentar que o petróleo, que era nosso, aguou”, afirma com razão.

 

Petrobras promove evento sobre Governança no Rio de Janeiro

No dia 29 de janeiro, apenas um dia após anunciar mudanças na estrutura de Governança na Petrobras, a empresa patrocinou um seminário no Rio de Janeiro, em parceria com o Jornal O Globo, chamado “Diálogos Empresariais: Governança Corporativa”, cuja plateia lotou um grande auditório no Hotel Windsor Atlantica, no Leme. O evento foi aberto pelo diretor de Governança, Risco e Conformidade da Petrobras, João Elek, sucedido pelos debatedores Marina Grossi, presidente do CEBDS; André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos; e Alexandre Di Miceli, sócio-fundador da Direzione Consultoria Empresarial. A mediação ficou a cargo da jornalista Flávia Oliveira, colunista de O Globo.  

 

A Revista da Reputação esteve presente e atesta que as apresentações foram de alto nível, ainda que o momento parecesse precipitado para uma aparição da Petrobras. Na ocasião, João Elek abriu o coração e confessou que a crise atual foi fruto da cultura organizacional que era vigente, onde não havia muito espaço para questionamento hierárquico. 

 

Impactos da Governança já são percebidos em pesquisas 
De acordo com a pesquisa Brasil Reputation Pulse 2016, conduzida pelo Reputation Institute entre janeiro e fevereiro deste ano e que contou com 8.021 respondentes nas 27 capitais do país, tudo indica que as medidas adotadas pela Petrobras desde o começo do ano passado já começam a ser percebidas pela população. 


A empresa, que já foi a única brasileira entre as top 100 do ranking global do Reputation Institute, tinha índices de reputação variando entre 74 e 77 pontos desde 2007. Em 2014, esse número começou a cair ficando em 69 e, em 2015, a empresa apresentou seu pior resultado histórico, com um índice de reputação de 32,4 pontos, na escala de zero a cem. 


É importante observar que, quando avaliadas dimensões como Produtos e Serviços e Inovação, os números tiveram pouco impacto negativo por causa da crise, em uma demonstração de que a população brasileira continua a dar um crédito de confiança à empresa por seu reconhecimento como referência técnica. No entanto, as baixas avaliações das dimensões Liderança e, principalmente, Governança, explicam a queda acentuada. 


Embora não haja ainda motivos para comemorar, os dados da pesquisa do Reputation Institute de 2016 mostram uma recuperação de 6 pontos nos índices da Petrobras, que figura agora com 38,5, reputação considerada “fraca” pelos parâmetros da consultoria. “Na verdade, depois de uma crise séria como a da Petrobras, não eram esperados resultados diferentes desses em uma pesquisa de reputação”, comenta a professora doutora Ana Luisa Almeida, Presidente do Reputation Institute aqui no Brasil.  


“A reputação é um ativo intangível que se constrói através dos tempos”, relembra ela, “e somente com a uma postura de seriedade, revendo comportamentos e dando provas consistentes de rearranjos estruturais e de governança é que uma empresa consegue recuperar a sua credibilidade junto à sociedade depois de uma crise”, pondera. 


A queda foi acentuada, cerca de 45 pontos, levando em consideração o pico mais alto e o mais baixo nas pontuações das pesquisas. Prova inconteste de que a reputação é um ativo de cristal nas empresas. 

 

* Tatiana Maia Lins é Consultora em Comunicação com foco em Reputação Corporativa, diretora da Makemake Comunicação e editora da Revista da Reputação.

 

** Imagem gentilmente cedida por Nani - www.nanihumor.com

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