A prisão de empresários e os impactos para os negócios

Se há algo positivo que podemos tirar das crises que as empresas passam é o aprendizado. No emaranhado de crises em que a Petrobras se encontra, a maior lição que aprendemos é que o “Business as usual” no Brasil está passando por fortes transformações. Em parte por demandas sociais, em parte por demandas legais que exigem maior controle nas organizações. 


Como filha de um ex-empreiteiro, cresci ouvindo histórias de como a  corrupção sempre existiu nas grandes obras públicas, desde antes da Ditadura Militar, quando a construtora que meu pai herdou ainda pertencia ao meu avô. A mais icônica, talvez, seja a história que meu pai contava de um hospital que ele havia feito na Região Norte, que tinha sido inaugurado com tudo certinho, e anos depois foi reinaugurado pelo novo governante local, sem passar por nenhuma alteração, fazendo com que a equipe do tal político desviasse uma quantia suficiente para fazer um novo hospital, do zero.  Esta artimanha foi denunciada e o meu pai convidado a prestar esclarecimentos sobre as condições em que a obra havia sido entregue pela nossa empresa familiar. 


Para encurtar a história, na véspera do depoimento do meu pai uma outra pessoa que sabia de todo o esquema foi assassinada, em um quarto de hotel, por pura queima de arquivo.  Meu pai ficou com medo de morrer e em seu depoimento disse não saber de nada,


Anos mais tarde, eu estava em Londres quando soube que os arquivos diplomáticos dos anos 1960 haviam sido liberados para consulta pública. Estava estudando como a mídia inglesa havia retratado a Ditadura Militar no Brasil e não pensei duas vezem em seguir para a British Library em busca dos documentos diplomáticos. Lá, chorei de vergonha ao ler um relato sobre todo o esquema de corrupção no Brasil. Ele mencionava, em porcentagens, quanto cada pessoa recebia na cadeia de aprovação de um novo negócio.

 

Do despachante no cartório que agilizava o trâmite da papelada aos militares responsáveis pelas assinaturas finais. Estava tudo relatado, por um gringo, e aqui no Brasil as pessoas fechavam os olhos para a corrupção nossa de todos os dias, porque esta era a maneira como os negócios eram feitos por aqui. Se alguém dissesse, nos anos 1970, que  um empreiteiro seria preso por corrupção e passaria o Natal na cadeia, as pessoas, provavelmente, pensariam que era uma piada. Passar Natal na cadeia era coisa para comunista, não para empresários capitalistas. 


Mas depois das denúncias de corrupção envolvendo empreiteiras contratadas pela Petrobras e suas subsidiárias, durante a Operação Lava-Jato, esta impunidade dada como certa deixou de existir.  Ou, pelo menos, entrou na agenda de debates nacionais e corporativos. Desde quando a Operação Lava-Jato ganhou fôlego, em 2014, quase 100 pessoas já haviam sido presas, entre executivos de empreiteiras, funcionários da Petrobras, lobistas e doleiros. No momento de fechamento desta edição, 28  pessoas continuavam presas. Entre eles, 12 já foram condenados por Moro e 16 aguardavam julgamento.


Mas a Justiça nem sempre é feita. A operação Lava Jato foi deflagrada após denúncias que começaram em 2008 feitas por um empresário que não concordou que a sua empresa fosse usada para lavagem de dinheiro: Hermes Magnus, um gaúcho de 44 anos, dono da Dunel Indústria e Comércio, fabricante de máquinas e equipamentos para certificação. A Dunel quebrou, o denunciante diz passar por maus bocados sendo perseguido fisicamente e por telefone e sonha ir morar em outro país, em busca de paz.  

 

O simbolismo da mudança
Simbólicas e midiáticas, estas prisões de empresários donos de impérios abrem a discussão sobre corrupção dentro das empresas e sobre os limites que precisam ser resguardados em prol do bem comum. Não sei se já está acontecendo de fato, mas ouvi dizer de ex-funcionários das empresas denunciadas na Lava-Jato que gostariam de processá-las por terem manchado os seus CVs. Estas pessoas hoje enfrentam dificuldades para recolocação no mercado porque seus nomes acabam associados à corrupção, mesmo que elas nada tenham a ver com o esquema. Se isso realmente vier a acontecer será uma verdadeira revolução no modo como fazemos negócios no Brasil.  As empresas não apenas terão que ter entregas éticas aos olhos de seus acionistas e do mercado, mas também precisarão zelar pelo seu nome, que por extensão é também parte da identidade de seus funcionários. O novo modelo de negócios que advém desta crise será mais honesto e meritocrata. 


O novo modelo de negócios deixa de ser centrado na impunidade e passa a ser centrado na responsabilização civil dos atos cometidos pelas pessoas em cargos de liderança ou em qualquer cargo de uma empresa. O efeito em cascata diminui a tolerância das pessoas não apenas aos grandes delitos, como também aos deslizes cotidianos como assédio moral e favorecimento pessoal.  Tomara que esta cobrança chegue também às esferas políticas e as pessoas passem a exigir coerentemente e sistematicamente atitudes políticas que visem o bem de todos. Que seja o fim do “rouba mas faz”. 

 

* Tatiana Maia Lins é Consultora em Comunicação com foco em Reputação Corporativa, diretora da Makemake Comunicação e editora da Revista da Reputação. 

 

* Imagem gentilmente cedida por Nani - www.nanihumor.com 

 

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